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ODONTOLOGIA DESPORTIVA
Para ter sorriso de campeão

Para garantir um bom desempenho em suas atividades, atletas e técnicos precisam manter a forma física, assim como a saúde dentária e a do organismo. A Odontologia Desportiva previne traumas e doenças orais que podem ocorrer durante as práticas esportivas


Por Cléo Tassitani
Ilustrações: Garcez

A força do soco do boxeador Acelino "Popó" de Freitas é resultado de muito treinamento e determinação. Atual campeão mundial de boxe, acumula 31 vitórias, sendo 29 por nocaute. Para que Popó continue derrotando seus adversários, é fundamental que ele não descuide de sua alimentação, para manter seu corpo sempre saudável. Além disso, no esporte que Popó pratica, seu rosto fica vulnerável a fraturas e a traumas desportivos. Por isso, ele recorre à Odontologia Desportiva, uma especialidade que, há pouco mais de seis anos, previne, cuida e reduz os traumas que ocorrem nas mais variadas modalidades esportivas.

Vitória sem traumas

Geralmente os atletas, profissionais e amadores, são tratados de forma convencional, o que é um grande erro, porque o tratamento de um esportista, sobretudo daquele que compete, deve ser diferente do de uma pessoa comum.
Em uma pessoa normal, por exemplo, é possível fazer uma restauração de metal, por ser mais resistente. Já, num atleta, isso não é recomendável. Como os desportistas sofrem muitos impactos durante a prática esportiva, essa restauração pode acabar fraturando algum dente. Por isso é necessário o uso de resina, que por ser mais frágil, jamais causará danos como esse. Para um esportista, é melhor quebrar a restauração do que um dente, pois ela é mais fácil de ser trocada.
A grande diferença da Odontologia Desportiva para a convencional é que o profissional especialista em esporte conhece a cabeça do atleta. Muitas pessoas apresentam dores nas costas e o médico pensa que elas estão relacionadas aos músculos, sendo que a causa pode ser odontológica. Nesse caso, a pessoa não melhora e ela e o médico não entendem o porquê da não-recuperação. Quando uma pessoa tem algum problema na boca, ela leva até duas vezes mais tempo para se recuperar, pois o sistema de defesa do organismo ficará dividido entre a lesão bucal e a física.

A Odontologia Desportiva trabalha em conjunto com a Medicina Esportiva, Fisioterapia, Nutrição, Fonoaudiologia, Psicologia Esportiva e outras áreas ligadas ao esporte. Seu principal objetivo é garantir uma excelente saúde bucal ao desportista, detectando fatores prejudiciais a ele, como a respiração bucal e o mau-posicionamento dos dentes, e administrando medicamentos isentos de substâncias que possam causar dopping positivo.

O rendimento do atleta pode diminuir em até 22% por vários motivos relacionados aos dentes, entre eles, a má-oclusão - que provoca problemas de mastigação, e ele acaba não aproveitando toda a energia proveniente de sua alimentação - e focos de infecção, que causam danos à mastigação e à respiração. Então, o esforço extra que o atleta deverá dispor para respirar será compensado pela boca - e isso irá comprometer seu desempenho de uma maneira geral. A Odontologia Desportiva pode tratar todas essas disfunções, transmitindo mais segurança, habilidade e conforto aos esportistas.

Cuidar dos dentes traz benefícios para o organismo em geral. Um foco infeccioso na boca, por exemplo, representa o comprometimento da saúde dos dentes e de outros órgãos do corpo, espalhando-se através da corrente sangüínea, provocando risco para o coração, lesões nas articulações dos joelhos e dos ombros e dificuldade de recuperação em lesões musculares.

Atendimento multidisciplinar

A Abrodesp - Associação Brasileira de Odontologia Desportiva - é uma associação criada e dirigida por dentistas e tem um enfoque multidisciplinar. Participam dela, hoje, 54 profissionais, entre dentistas, médicos, nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. "Nosso objetivo é melhorar o rendimento do atleta a partir da melhora de sua saúde bucal", afirma seu presidente-fundador, Dr. César Augusto Bertini Donadio, cirurgião-dentista, especialista em Traumatologia e responsável por traumas desportivos, fraturas de face e dentárias.

Por enquanto, é com o estudo e desenvolvimento de protetores bucais, úteis especialmente nos esportes de maior contato, que a Odontologia Desportiva vem se tornando conhecida. Mas o aumento da competitividade nos esportes, certamente, concorrerá para o seu reconhecimento como especialidade no futuro.
Grandes academias, clubes, federações e confederações esportivas são as áreas de atuação para esses novos profissionais, que devem atuar ainda na mediação de muitos esportes. "Em alguns casos, apenas o dentista pode dizer se o atleta tem ou não condições de continuar em uma competição após um trauma", afirma o cirurgião-dentista Carlos Ferrari, diretor científico da Abrodesp.

Para que a Odontologia Desportiva comece a se expandir, a Abrodesp pretende angariar profissionais e divulgar suas atividades e objetivos no meio odontológico, por meio de cursos, palestras e divulgação de trabalhos científicos. Outro objetivo da associação é tornar a Odontologia Desportiva matéria curricular nas faculdades. Com isso, a Abrodesp espera gerar fontes de emprego para esses novos profissionais da área de Odontologia no meio esportivo.

Ainda não existem cursos de formação específicos de Odontologia Desportiva e são poucos os profissionais que dão palestras sobre o tema. No entanto, informações podem ser obtidas na Abrodesp, que também oferece suporte para todos os CROs do Brasil que tiverem interesse em montar uma Comissão de Odontologia Desportiva.

ESPORTE COM PROTEÇÃO

Protetor Personalizado

A crescente prática de esportes de contato (jiu-jítsu, boxe, lutas marciais, entre outros) tem elevado o número de traumatismos em dentes e nos maxilares. Em função disso, muitos atletas têm recorrido à utilização de protetores bucais como um eficiente método de redução, ou até mesmo de eliminação dos traumatismos, principalmente em incisivos centrais e laterais superiores. "Os protetores funcionam como almofada, distribuindo as forças durante o golpe, prevenindo, assim, a laceração e equimose dos lábios e bochechas durante o impacto", explica o especialista em Reabilitação Oral e membro da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética, Dr. Elcio Narciso.

Segundo a Academia Americana de Odontologia Esportiva, o uso desse aparelho diminui em 80% o risco de trauma dental. Cada desportista envolvido em esporte de contato tem 10% de chance de sofrer um acidente dental ou oral. Sem o uso do protetor bucal personalizado, o risco de sofrer um ferimento nos dentes aumenta mais de 60 vezes. "Devido ao fato de ser bem adaptado, o protetor bucal não atrapalha a respiração do atleta, possibilitando uma fala mais fácil e a ingestão de líquidos sem precisar tirá-lo da boca", argumenta o Dr. Narciso.

Existem, basicamente, dois tipos de protetores bucais: o "ferve-e-morde" e o personalizado. "Eles são usados na arcada dentária superior, o local mais vulnerável aos traumas. Se o atleta usa aparelho ortodôntico fixo, o protetor é colocado em ambas as arcadas, pois a possibilidade de ferimentos é maior", explica o especialista.

O "ferve-e-morde" é um protetor bucal feito de silicone, vendido em lojas de material esportivo, em tamanho único. Para usá-lo, o esportista precisa adaptá-lo à sua boca. É necessário que o atleta fique de boca fechada durante a competição para que o protetor não caia. Esse aparelho dá uma falsa sensação de segurança. Como não se adapta perfeitamente à boca, pode causar ferimentos nos desportistas.

O protetor bucal personalizado é um aparelho bem mais sofisticado. Trata-se de uma placa de silicone prensada sobre o modelo de gesso. Pelo fato de ser confeccionado sobre o modelo da arcada, adapta-se perfeitamente à boca, oferecendo maior conforto e maciez. Podendo ser colorido ou transparente. Para colocá-lo o atleta necessita fazer, no mínimo, duas consultas. A primeira é um exame clínico para avaliação de suas condições bucais, tipo de mordida, se usa aparelho ortodôntico e outras informações. Também, nessa fase, costuma-se fazer a moldagem da arcada superior e escolhe-se a cor. A segunda serve para a colocação do protetor e ajustes, caso sejam necessários.

O protetor bucal personalizado pode ser utilizado pelos praticantes de esportes radicais (mountain bike, moto-cross hockey inline, patins inline e skate), de artes marciais (judô, jiu-jítsu, karatê), lutas (greco-romana, sumô) e de esportes de quadra (voleibol, handebol, futebol de salão, etc.).

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